Como a tecnologia se expandiu e tornou-se imprescindível em nosso cotidiano, não?! Facilitou em muitos aspectos, nos acomodou em outros, aproximou a muitos. Também distanciou-nos de outros, trouxe alguns conflitos sérios, ou mesmo rompimentos tidos por definitivos.

E o que dizer das redes sociais? Temos visto quanta autoestima que agora depende da quantidade de curtidas ou do sucesso na internet, isso sem contar que para muitos elas têm se tornado a fonte maior de prazer. Ter um lugar para falar de si e expor-se pode ser interessante em boa parte do tempo, pode ajudar alguns inclusive. Mas qual a boa medida disso? Indicar um lugar interessante para se comer, como dica para quem passar por ali, ou compartilhar a foto de um programa legal, um local que vale a pena visitar: toda essa troca pode efetivamente ajudar e ser útil. Mas será que ela tem passado a ser predominante no uso do nosso tempo?

Os joguinhos eletrônicos podem ser um bom entretenimento para relaxar, mas quando o espírito competitivo vem com tudo e a brincadeira se torna vício? Então o mau humor impera, certa agressividade maior aparece, e ainda a tristeza ou ansiedade aumentam. Seriam esses sinais de que o excesso venceu e viciou de verdade?

Quantas famílias têm vivido mergulhadas em aparelhos eletrônicos, inclusive os pequeninos, em seus tablets! Cada um num mundo virtual particular, sendo que as relações presenciais vão rareando ou tornando-se mais superficiais. Não se têm ouvido cada vez mais queixas a esse respeito?

O salmo do século XXI

Agora temos um número maior de telas que trazem em si o potencial de nos aprisionar. Precisa ser assim? Claro que não, mas onde foi parar nossa moderação? É preciso postar tanto e seguir tanta gente? O que se pretende acompanhar? O que fazer com essa gula de informação? O que é, afinal de contas, essencial? Sabemos reconhecer o uso excessivo ou andamos distraídos demais? Estamos conscientes dos efeitos colaterais? Sabemos identificar o tecnoestresse? Será que precisamos mesmo ver e sermos vistos quase o tempo todo? Alguns, numa confissão íntima, não declarada exteriormente, já dizem: “Eis a minha tela, refúgio e fortaleza nas horas de

angústia”. Esse seria parte do salmo do século XXI?

As fugas modernas e anestesias em forma de relações virtuais são um problema real. O exército de dependentes se multiplica. Será que tem gente entrando numa espécie de falência múltipla das relações presenciais? Quantos percebem o baixo nível de atenção e a diminuição da capacidade de concentração devido à distração fácil via celulares sempre disponíveis? Quem consegue acordar à noite e não dar uma olhadinha no que anda acontecendo no mundo? Quem consegue desconectar sem comprometimento emocional maior? Estamos nos tornando zumbis digitais? Seres emocionalmente imaturos que estariam ainda mais vulneráveis a dependências?

Os descansos escondidos

Tem se falado com mais frequência sobre o “detox digital”, o desafio de desintoxicar-se das redes sociais, da conexão permanente, dos teclados da vida. Claro que isso não é problema para todo mundo, muitos ainda sofrem de exclusão digital e outros se recusam a fazer parte desse mundo. Mas não podemos recusar os benefícios ao nosso alcance. Contudo, já que esse é um período de férias para tantos, por que não tirar férias também das telas e ver o resultado?

Quem sabe pousar o olhar sem pressa na natureza, encontrar pessoalmente mais amigos, investir um tempo na leitura de bons livros, buscar boas conversas e troca de olhares, um abraço gostoso… invente outras alternativas e avalie. Talvez você descubra que havia um cansaço escondido, disfarçado em nome de necessidades criadas nesse mundo virtual. Desestressar pode ser algo a ser descoberto via renúncia do digital, ao menos por um pouco. Tente, faça diferente. Crie outras possibilidades de encontros. Quem sabe esse pode ser um bom desafio para o ano que se inicia.

Tais Machado (psicóloga clínica, palestrante e professora de alguns Seminários Teológicos.

Fonte: www.ultimato.com.br)